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- Lendas do Sul - 10/16 -


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Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça... e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do serro.

Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá... e a teiniaguá na princesa moura... a moura numa tapuia formosa;... e logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado...

E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho de repouso!...

Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde...

E agora estava certo de que era pobre como dantes que comeria em paz e seu churrasco...; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta, em paz a sua vida!...

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Assim acabou a salamanca do Serro do Jarau, que aí durou duzentos anos,11 tantos se contam desde o tempo das Sete Missões, em que estas cousas principiaram.

Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que a teiniaguá era mulher...

*Elucidação*

*1 Serro do Jarau* —Na Coxilha Geral de Sant’Ana, sobre a linha divisória com a República do Uruguai.

Fica um pouco ao N. da cidade de Quaraí, em campos da família Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (...metros) daquela zona, sendo avistado de muito longe. No fim da guerra do Farrapos (1845) notaram-se sobre o espigão do Serro, e parecendo dele sair, grossos rolos de fumaça. É essa a primeira notícia que há do fenômeno.

Outras combustões registraram-se depois, notadamente por 1904, em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.

*2 Salamanca* —Furna encantada; provém a denominação da cidade de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre escola de magia, no tempo dos Mouros. A seguir a tradição local, o célebre caudilho Bento Manoel deveu a sua sorte guerreira, política, de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do Jarau. Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí obteve mais nada, desde — “que o serro pegou fogo” — quando acabou o encantamento.

*3 Laus’ Sus’ Cris’!* —Forma abreviada e estranha, é certo, porém expressiva da saudação — Louvado seja Jesus Cristo! Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.

*4 Boi barroso* —É a vaga relembrança de um boi encantado, que aparecia porém nunca era encontrado por mais procurado que fosse; e também denominação de uma antiga dança camponesa, cuja música era ornada de versos que eram cantados durante o folguedo.

*5 Anhangá-pitã* — Literalmente, do tupi-guarani: diabo vermelho.

*6 Teiniaguá* — Idem: lagartixa. A teiniaguá encantada também era chamada — carbúnculo, farol — e trazia engastada na cabeça “uma pedra preciosa que cintilava como brasa e de cor de rubim...

Semelhante animal nunca puderam apanhar nem vivo nem morto, porque por suas irradiações desvia os olhos e mãos dos perseguidores”. (Rev°. C. Teschauer, S. J. na Rev. do Instº. do Ceará, 1911).

*7 Zaorís* — V. adiante a lenda referente.

*8 Charruas* — Tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a Coxilha de Aedo, e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para L. até o rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde 1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje por bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e a deturpação das lendas que entre tais gentes floresceram.

*9 Cidade de Santo Tomé* — Na Argentina; sobre o Uruguai, entre o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de S. Borja. “Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos, estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos anos. Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos,

refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para a margem direita do Uruguai, encorporando-se à redução de Santo Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome, quase em frente de S. Borja”. (Revo. C. Teschauer, citado) Existe no arrabalde de S. Tomé a famosa sanga, que aponta como prova do acontecimento e poder da teiniaguá encantada.

*10 ,... tangido pelo Destino* — É característico este traço no indivíduo rio-grandense, que até por hábito doméstico emprega como vulgares as expressões — sorte, destino, fado — Na gente inculta torna-se curiosa a indistinta veneração prestada ao divino e ao diabólico, como forças superiores que atuam sobre os homens.

*11 ...aí durou duzentos anos, etc.* — Coincide com a lamentação do sacristão encantado a era do período do mais calmo das missões sobre o rio Uruguai, 1650, em que formou-se a lenda.

*O NEGRINHO DO PASTOREIO* _A Coelho Netto_

_Pelotas — 1 de janeiro, 1907_

_Meu caro patrício Sr. J. Simões Lopes Netto._

_Venho agradecer-lhe a dedicatória da lenda “O Negrinho do pastoreio” publicada no Correio Mercantil” de 26 de dezembro. Já conversamos sobre a necessidade que, todos quantos nos interessamos pela tradição temos de coligir as trovas e narrativas do velho tempo. Elas representam o sonho dos que passaram, são a bem-dizer o rastro das almas. Entendem muitos escritores que devem corrigir a afabulação e a forma de tais relíquias tirando-lhe o caráter ingênuo, o sabor suave que elas trazem de origem. O meu amigo não incorreu em tal culpa—procedeu como o file celta que, chamado para referir aos da “clan” as histórias dantanho, dizia-as repetindo com respeitosa observância da tradição tal como as ouvira dos maiores. E o que, sobretudo encanta no lindo raconto que me ofereceu, no qual transparece bem a alma do povo pastoral, é a simplicidade.— Lendo-a tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia popular, tão rica em nossa pátria e tão desestimada._

_Reiterando os meus agradecimentos peço-lhe que continue a respigarem tão rica seara trazendo-nos outros presentes como o que me ofereceu com tanta generosidade._

_Muito seu agradecido_

_Coelho Neto_

O NEGRINHO DO PASTOREIO

Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...


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