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- Lendas do Sul - 2/16 -


depois, como uma braçada...

VI

E vai,

como a _boi-guassú_ não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...

VII

Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a _boi-guassú_ tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde então, de _boi-tátá_, cobra de fogo, _boi-tátá_ , a _boi-tátá_ !

E muitas vezes a _boi-tátá_ rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.

E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — _tátá_, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a _boi-tátá_ ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os da carniça enfaravam...

VIII

Mas, como dizia:

na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da _boi-tátá_ , e era por ela que o _téu-téu_ cantava de vigia, em todos os flancos da noite.

Passado um tempo, a _boi-tátá_ morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos...

Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.

E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.

E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!

IX

Minto:

apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz... depois a metade de uma cambota de fogo... e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

X

Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da _boi-tátá_ ficou sozinha, nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.

Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme talvez entocada.

Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então seu fadário.

A _boi-tátá_ , toda enroscada, como uma bola — _tátá_, de fogo! — empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!...

É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando... e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!

Maldito! T’esconjuro!

XI

Quem encontra a _boi-tátá_ pode até ficar cego... Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!

A _boi-tátá_ vem acompanhado o ferro da argola... mas de repente batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.

XII

Campeiro precatado! reponte o seu gado da _boi-tátá_ : o pastiçal, aí, faz peste...

Tenho visto!

*A SALAMANCA DO JARAU* _A Alcides Maya_

O Serro do Jarau 1 A salamanca 2

I

Era um dia...,

um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.

E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas; para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas — a carqueja é sinal de campo bom —, por isso o campeiro ás vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista entorno; mas o boi ]barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeiando, campeiando...

Campeiando e cantando:

“Meu bonito boi barroso, Que eu já contava perdido, Deixando o rastro na areia Foi logo reconhecido.

“Montei no cavalo escuro E trabalhei logo de espora; E gritei — aperta, gente, Que o meu boi se vai embora! —

“No cruzar uma picada, Meu cavalo relinchou, Dei de rédea para a esquerda, E o meu boi me atropelou!

“Nos tentos levava um laço De vinte e cinco rodilhas. P’ra laçar o boi barroso Lá no alto das coxilhas!

“Mas o mato carrasquento Onde o boi ‘stava embretado, Não quis usar o meu laço P’ra não vê-lo retalhado

“E mandei fazer um laço Da casca do jacaré, P’ra laçar meu boi barroso


Lendas do Sul - 2/16

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