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- Lendas do Sul - 3/16 -


Num redomão pangaré.

“E mandei fazer um laço Do couro da jacutinga, P’ra laçar meu boi barroso Lá no passo da restinga.

“E mandei fazer um laço Do couro da capivara P’ra laçar meu boi barroso Nem que fosso à meia-cara;

“Este era um laço de sorte, Pois quebrou do boi a balda”... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza, no atraso das suas cousas.

No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou — cara à cara! — com o Caipora num campestre da serra grande, p’ra lá, muito longe no Botucaraí...

A lua ia recém saindo...; e foi à boquinha da noite...

Hora de agouro pois então!...

Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente agora; mas, quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrario o lanhava...

Domador destorcido e parador, que, por só pabolajem gostava de paletear, ainda era domador agora; mas, quando gineteava mais folheiro, ás vezes, num redepente, era volteado...

De mão feliz para plantar, que não lhe chochava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava uma praga em toda, tanta, que benzedura não vencia...; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda...

E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeiando, sem topar co’o boi barroso.

De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão, sofrenou o tostado...: ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de face tristinha e mui branca.

Aquele vulto de face branca... aquela face tristonha!...

Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes...; e de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrominas de encantamentos..., conversas que se falavam baixinho, como num medo; p’r’o caso, os que podiam não contavam, porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez por juramento dado...

Aquele vulto era o santão da salamanca do serro.

Blau Nunes sofrenou o cavalo.

Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem é para outro homem!...

E como era ele

quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:

— Láus’ Sus’ Cris’!...3

— Para sempre, amem! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso vai trepando serro acima, vai trepando... Ele anda cumprindo o seu fadário..4

Blau Nunes pasmou do adivinho; mas respostou:

— Vou no rastro!...

— Está enredado...

— Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta do fumo do serro...

— Tu... tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?...

— É lá?... Então, sei, sei! A salamanca do serro do Jarau!... Desde a minha avó charrua, que eu ouvi falar!...

— O que contava a tua avó?

— A mãe da minha mãe dizia assim:

II

— Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade chamada—Salamanca — onde viveram os mouros, os mouros que eram mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol, que diz’ que desmancha a força da bruxaria...

O condão estava no regaço de uma fada velha, que era uma princesa moça, encantada, e bonita como só ela!...

Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem nos peitos, pedindo perdão...

Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata, pedras finas, gomas cheirosas... riquezas para levantar de novo o seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém...

E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha, que era a sua formosa princesa moça...

E devia ter mesmo muito força o condão, porque nem os navios se afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios santos que vinham, não sentiram...

Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque esses são só imagens...

Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia noite da primeira sexta-feira foram visitados pelo Diabo deles, que neste lado do mundo era chamado de Anhangá-pitã5 e mui respeitado. Então, mouros e renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito; folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e destas serras era gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos sempre abertas e fazedoras...

Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam...; e pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico — que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos —, esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a teiniaguá6 , sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.

E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que os olhos de gente vivente não podiam parar nele, ficando encandeiados, quase cegos!...

E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E chamaram — salamanca — à furna desse encontro; e o nome ficou p’r’as furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.

Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes, entre serranias macotas.

Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira ensinou-lhe a vaqueanajem de todas as furnas recamadas de tesouros escondidos... escondidos pelos cauílas, perdidos para os medrosos e achadio de valentes... E a mais desses, muitos outros tesouros que a terra esconde e que só os olhos do zaorís7 podem vispar...

Então Anahangá-pitã, cansado pegou num cochilo pesado, esperando o cardume da desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre...

Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...


Lendas do Sul - 3/16

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