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- Lendas do Sul - 4/16 -


Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrúa8 contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que, esses, viram!...

E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava... ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes...

Falou então

o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia. E disse assim:

III

É certo:

não tomou tenência que a teiniaguá era mulher... Ouve paisano.

No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa...

A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela encontraram soberbos pensamentos maus... O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga, do pecado...

A minha boca provou do sal piedoso... e nela entrou a frescura que requeima, dos beijos da tentadora...

Mas, é que assim era o fado... ; tempo e homem virão para me libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca, tristeza de arrependido que não chora...

Tudo o que me volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão...

Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres na igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados... Eu era o sacristão.

Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem uma viração.

Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E sai sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando como levado...

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro da terra é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas...

Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa... ferver, sem fogo que se visse!

A mão direita, pelo costume, andou a fazer o “Pelo Sinal”... e parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo... e tanger o sino em dobre... e chamar o padre superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno... e nada fiz... sem força na vontade, nada fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...

E fui andando, como levado, para mais de perto ver, e não perder de ver o espantoso

Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar...

Era no fim de lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta...

E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha..., maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser — verdade — e que eu, que estava vendo, ainda jurava ser — mentira! —

Era a teiniaguá, de cabeça

de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior a historia contada dum encontradiço que quase cegou de teimar em agarrá-la.

Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando perigo; mas a teiniaguá veio me chegando, deixando no chão um duro rastro d’água que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...

Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro ressequido...

Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando...

De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!

Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça sonando como um sino de catedral...

Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!...

Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.

Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.

Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os Cavaleiros da Tábola...

Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.

E eu, agora!...

E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...

E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam...

E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...

E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como o mato virgem...

E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os meus paióis.

E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...


Lendas do Sul - 4/16

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