Schulers Books Online

books - games - software - wallpaper - everything

Bride.Ru

Books Menu

Home
Author Catalog
Title Catalog
Sectioned Catalog

 

- Lendas do Sul - 5/16 -


Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir...

Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre, dobradiças de bronze!...

Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...

Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres, na minha falta.

Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.

Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.

Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de lechiguana, por ser o mais fino.

E fui; melei; e voltei.

Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.

E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração mermou no compassar do sangue!...

Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...

Que disse:

IV

— Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo...

Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos, relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça transparente...

Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro; e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.

Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás senhor do muito, do mais, do tudo!...

A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também a princesa moura...

Sou jovem... sou formosa..., o meu corpo é rijo e não tocado!...

E estava escrito que tu serias o meu par.

Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não esconjurar... se não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...

Si a cruz do teu rosário não me esconjurar...

Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente dos infiéis...

E foi se adelgaçando

no silêncio a cadencia em balante da fala induzidora.

A cruz do meu rosário...

Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na primeira... e quando tenteei a ultima... e que entre as duas os meus dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador... fui levantando o Crucificado... bem em frente da bruxa, em salvatério... na altura do seu coração... na altura da sua garganta... da sua boca... na altura dos...

E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil vidas de homem como o aroma sai da flor que vai apodrecendo...

Cada noite

era meu ninho o regaço da moura; mas quando batia a alva, ela desaparecia ante a minha face cavada de olheiras...

E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém, e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a benção sobre a gente ajoelhada, que rezava para alivio dos seus pobres pecados, que nem pecados eram, comparados com os meus...

Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado, todo lavorado de palma e resplendores; e trouxe-o, transbordante, transbordando...

E embebedados caímos, abraçados.

Sol nado, despertei

estava cercado pelos santos padres.

Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela... E acharam a canastra guampa e no porongo o mel... e até no ar farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda...

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados... dobrando a finados...

Era por mim.

V

E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor...., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...

E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos, de os animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras, agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...

E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente...

Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados... dobrando a finados!...

Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro...


Lendas do Sul - 5/16

Previous Page     Next Page

  1    2    3    4    5    6    7    8    9   10   16 

Schulers Books Home



 Games Menu

Home
Balls
Battleship
Buzzy
Dice Poker
Memory
Mine
Peg
Poker
Tetris
Tic Tac Toe

Google
 
Web schulers.com
 

Schulers Books Online

books - games - software - wallpaper - everything