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- Lendas do Sul - 6/16 -


A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...

A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!

Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas de homens outros se não viram!...

E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...

O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver...

Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira...

Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade distilara.

Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso...: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!...

A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.

— Que a Missão de S. Tomé ia perecer... e dasabar a igreja... a terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as roças o plantio, os homens a coragem...

Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando...

Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!... o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!...

Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.

Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava... mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria...

E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!...

Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.

Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.

VI

Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um peso entre o mandar e o ser mandado...

Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso...

Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins, que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e escarlates e azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...; há poços largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais, tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de Castela e Aragão...

E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que não possuía...

O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.

Muitos tem vindo... e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...

Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente o que eu prometo, nem retoma o que dá!

E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso livramento um dia...

Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus...

Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou arrependido... e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.

Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim, quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá: quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar... para vencer... tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa dos tesouros...

Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.


Lendas do Sul - 6/16

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